Não te esqueças do melhor – texto de Walter Benjamin

 
 

 

“Não te esqueças do melhor”

 

 

Uma proposta de leitura de Walter Benjamin (1892-1940): quem me conhece saberá o porquê desta sugestão-partilha…; quem não me conhece poderá imaginar…

 

 

 

“Uma pessoa que conheço viveu o período mais ordenado da sua vida quando era mais infeliz. Não se esquecia de nada. Anotava até ao mínimo pormenor tudo o que tinha para resolver, e quando se tratava de um encontro – que nunca esquecia -, era a pontualidade em pessoa. O caminho da sua vida parecia que estava pavimentado, sem a menor fresta onde o tempo tivesse a oportunidade de proliferar. E assim viveu durante muito tempo. Até que circunstâncias várias provocaram uma mudança na existência da dita pessoa. Começou por pôr de lado o relógio. Treinava-se para chegar tarde, e quando o outro já se tinha ido embora ele sentava-se e ficava à espera. Se precisava de alguma coisa, raramente a encontrava, e se tinha de arrumar algum lugar, a desordem crescia ainda mais noutro. Quando se sentava à secretária, era como alguém se tivesse instalado para aí viver. Mas era ele próprio que vivia assim no meio de escombros, e tudo aquilo que trazia era logo integrado nessa construção, como faziam as crianças. E ainda como as crianças, que encontram por toda a parte, nos bolsos, na areia, na gaveta, coisas esquecidas que esconderam aí, assim também as coisas se passavam com ele, não só nas ideias, mas também na vida. Os amigos visitavam-no quando ele menos pensava neles e mais deles precisava, e os presentes que traziam, que não eram valiosos, vinham na hora certa, como se ele tivesse os caminhos do céu na palma da mão. Nessa altura ele gostava de recordar a lenda do rapazinho pastor a quem um dia é permitido entrar na montanha com os seus tesouros, mas que ao mesmo tempo recebe o enigmático aviso: «Não esqueças o melhor.» Por essa altura, ele estava razoavelmente bem. Concluía poucas coisas começadas, e não dava nada por concluído“.

 

FONTE: BENJAMIN, Walter, Imagens de Penamento, Assírio & Alvim,

[edição e tradução de João Barrento], Lisboa, 2004, p. 227.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Livros. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s