Sobre o durar

 

 

Sobre o durar

 

[Preparação escrita da homilia, XXXII Dom. Ano – C: 14-11-07]

 

Alguém disse que a teologia é a “ciência dos excessos”. Não só a teologia o é, mas também por “tabela” o cristianismo. O Evangelho (Lc 20,27-38) move-se nessa reflexão. É a fé à procura de renovar as «mentalidades» diante do divino. Essa tarefa é exigente.

O “excesso” aparece por toda a parte. A Ressurreição em certo sentido é o supremo “excesso”. “O” mais difícil é acreditar em outras explicações. Primeiro, só há o “nada” depois desta vida. A morte leva ao vazio; gozemos o dia que passa, com ou sem ética. Segundo, existe sim um «além», que pode ter uma expressão, por exemplo, na “volta” da “reencarnação”. Mas “o” mais excessivo é a ressurreição, pois exige de nós «mais que» explicações/demonstrações, que a própria mente humana pode conceber (“… pois são iguais aos Anjos, e, por terem alcançado a ressureição, tornaram-se filhos de Deus”).

Esta exigência de «excesso» não nos perturba. Ter de lutar com o Mistério não é o pior para nós humanos. Saimos dessa luta mais humildes, mais profundos. A teóloga protestante Dorothee Sölle escreveu sobre esta inquietação de modo pertinente:

“Perguntar se tudo termina com a morte é algo ateu. Pois o que é esse “tudo” para voce? Você não pode descrever sua própria morte com a fórmula “então acabou tudo”; pois precisamente é essencial à definição de cristão o facto de que ele não é tudo para si mesmo. Não, não se acaba tudo, mas tudo continua. Continuam minhas ilusões, os projectos em comum que pus em marcha, as coisas que comecei e não terminei. É verdade que eu já não comerei; mas o pão continuará sendo assado e comido; e, ainda que eu já não beba, continuará sendo derramado o vinho da fraternidade. Eu já não respirarei como pessoa, como mulher do século XX, mas o ar continuará presente para todos”.

A nossa vida não é uma missão impossível. Se ressuscitamos a «vida plenificada» é possível. A compaixão com a dor dos vencidos encontra-se dignificada. Diante das vítimas de todos os tempos, somos encomendados ao Deus do futuro, fé-esperança, ao Deus que ressuscita os mortos. Dentro dessa tradição bíblica, Jesus dá o passo mais decisivo de sempre.

 

Autor: Pedro José, Borralha, 10-11-2007.

Caracteres (espaço incluídos): 2113.

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