O complexo de ABEL – Marc-Alain Ouaknin

 

 

Pílula Bíblica 11

 

O complexo de ABEL – Marc-Alain Ouaknin

 

 

 

1. Abel: o sopro do nadaA leitura dos dois primeiros versículos do capítulo 4 já nos dará a tonalidade essencial da dificuldade de existir de Abel: 4,1. “E Adão conheceu Eva, sua mulher. Ela ficou grávida e pariu Caim[1]. E ela disse: ‘Adquiri um homem com Deus’.”. 4,2 “E ela continuou até parir o seu irmão, Abel…”

O versículo 1 desdobra uma sequência clássica: relação sexual – gravidez – parto. Abel não tem direito a essa temporalidade normal da Criação. Ele é de imediato o irmão do primeiro. Ele não tem existência própria, individual. Eva dá uma explicação para o nome que atribui a Qain; pois, diz ela, “adquiri um homem com Deus”. Em hebraico, “adquiri” se diz quaniti, de onde “Qain”. Eis uma mãe que adquire, em vez de pôr no mundo… Nominação que exclui o pai. O pai humano não conta, foi com Deus que ela procriou. Pobre pai portador!

Para o segundo, “a mãe não conjugou o seu nome, ela não disse nada de seu desejo em sua direção, não falou nem com ele, nem sobre ele; como é que esse nome lhe chega e como pode ele viver com ele? Ele tem o menor sustentáculo na linguagem? O que é certo é que não o ouvimos ‘viver’ no discurso da mãe”[2]. É o texto, por assim dizer, que chama Abel, ele o nomeia com a não-nominação da mãe.

Em hebraico, “Abel” é “Hével”, (hê-vet-lámed). De onde vem esse nome? Etimologicamente, a raiz é bal, “não”; a letra é o artigo definido. Hével é o hê-bal, literalmente: o não.

O dicionário nos ajuda a aprofundar esta declinação semântica: beli é “não”, “sem”, e o derivados bilti, bilteka: “sem mim” e “sem ti”. Todos os verbos derivados e construídos com a raiz bal oferecem o sentido de negação, destruição, desaparição, deterioração. Assim, bála significa “estragar-se, aviltar-se, tornar-se vetusto”. Verbo que originou beloim, “farrapos”, tavlit, “abolição” (aqui se ouve a homofonia mnemotécnica “Abel” – “aboli”); o verbo lehavhil significa “dar medo, apavorar, fazer perder o controle de si, negar a consciência do homem”; ballal: “misturar, confundir, fazer desaparecer por meio de mistura, negação de uma forma individual”; tével: “abominação por mistura proibida, como a relação sexual entre um homem e um animal”; tevalul: “defeito do olho em que o branco e a cor da íris estão misturados”; bála (bet-lámed-áyin): “devorar, fazer desaparecer”[3].

Hével, o “não” fundamental, tornou-se “vaidade”, no sentido em que a encontramos no livro de Eclesiástico (Qohélet), que começa assim: “Hével havelim hakol hével” (“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”). Hével torna-se “lama”, “a inapreensível respiração que só se forma para depois diluir-se. Hével é tudo aquilo que é destinado, por essência, a desaparecer”[4].

 

2. Contar e ser contado Assim Abel é lama, “sopro do nada”. E, se Abel é morto, assassinado por seu irmão, ele é morto, primeiramente, por não ter sido contado, por não ter contado para outra pessoa, por não ter sido inscrito no desejo de um outro. Nascimento de um “não”, “não-essência”[5].

É interessante notar que a soma dos nove números primordiais[6], de 1 a 9, é igual a 45.

[1+2+3+4+5+6+7+8+9 = 45]

45, que em hebraico dá mem-hê ma, que significa “quê?” e corresponde também ao valor numérico, ou energia semântica, da palavra adâm/o “humano”: álef-dálet-mem: 1+4+40.

Na ordem do humano, cada pessoa tem uma importância fundamental, cada singularidade conta… A estrutura “alge-braica” do humano-adâm é carregada pela presença de todas as unidades.

Para repartir – tiqun – a morte de Abel, deste homem “sopro de nada” e “vaidade do ser” que não contou, é preciso o “livro das genealogias do homem”.

O sfr, que é ao mesmo tempo o “livro” e o “número”, “ensina que os tempos e a vida estão ligados ao enunciado perseverante dos nomes que tecem a trama da genealogia de Adão […], que a possibilidade da existência se mede com a medida das singularidades de cada um, que sublinha sempre a maravilha de um verdadeiro começo […]. Começo não absoluto, que se sabe desde já engajado pelo movimento dos toldot que o precedem”[7].

 

FONTE: OUAKNIN, Marc-Alain, Biblioterapia, Edições Loyola,

São Paulo, 1996, pp.256-258.

Caracteres (espaço incluídos): 3971

 


[1] Em hebraico, “Caim” se escreve qof-yod-nun, de onde a transcrição “Qain”, mais apropriada que “Caim”.

[2] D. Sibony, L´Autre incastrable, Paris, Éd. du Seuil, 1978, p.25.

[3] S.Mandelkern, Veteris Testamenti, concordantiae hebraicae atque chaldaicae, op.cit., pp.201-203.

[4] A. Néher, Notes sur Qohélèt, l’Ecclésiaste, Paris, Éd du Minuit, 1951, p.72.

[5] Sobre a génese do homicídio, cf. ainda A. Néher, “Caïn et Abel”, in L’Existence juive. Solitude et affrontements, Paris, Ed. du Sueil, 1985, pp.34ss. et Le puits de l’exil. La théologie dialectique du Maharal de Prague, Albin Michel, Paris, 1966, pp.180ss; cf. também C. Birman, C. Mopsik, J. Zacklad, Caïn et Abel, Paris, Grasset, 1980.

[6] Ou números de 0 a 9.

[7] C. Chalier, L´Histoire promise, op.cit.,p.29.

 

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