Cristão HOJE – por J.B.Libânio

 

 

Incontinências 04

 

 

“Custa-me a acreditar num Deus que, pelo que dizem, é bondoso e coisa e tal. Para crer em Deus bondoso é preciso crer na bondade de seus filhos, e isso é coisa que não consigo… por enquanto, duvido!”. A fé não argumenta para vencer apenas na base da lógica. A fé convence na base do testemunho, que se impõe como modo de ser, que está aí, falando de um além, de algo mais e melhor. É rosto e sorriso que desarma os violentos e demuncia os hipócritas. A fé é uma visão diferente e única. “Ubi oculis, ibi amor” – onde está o olhar, aí está o amor (Ricardo de São Vítor). A fé é um: “mãos vazias de boas obras já realizadas”, que pensa globalmente e actua localmente. Um outro mundo é possível.

Diante da famosa e belíssima Carta a Diogneto, do século II de autor desconhecido, João Batista Libanio, num ensaio teológico de indispensável leitura, propõe-se reescrevê-la para nós, defendendo uma teologia implicada no quotidiano, através do espírito inaciano. Fica a sua reflexão para uma fé significante e significativa, para o mundo em que vivem as pessoas hoje. “O cristão dirige automóvel como todos os outros, mas não se irrita facilmente, nem invade a pista dos outros, nem põe em risco a vida dos transeuntes, nem polui o ar nem o silêncio. O cristão assiste à televisão como todos os outros. Não o faz à custa do convívio familiar, nem suja a mente com o lixo de novelas e programas de auditório, feitos de frivolidades. O cristão habita as grandes cidades com lógicas férreas, sem deixar-se levar por elas, mas enfrentando-as na criticidade de sua fé.

O cristão anda pelas ruas com os olhos abertos. Vê as vitrines atulhadas de bens de consumo, belamente atraentes, mas não se deixa seduzir pelo consumismo, sussurrando para si mesmo o que Pe. Arrupe graciosamente dizia: “de quanta coisa não necessito!”. O cristão não teme olhar as pessoas nos olhos, no rosto, porque seu olhar não é concupiscente, mas transparente. Lembra-se da bem-aventurança de Jesus: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8). Abraça, beija, diz palavras de benquerença a tantos quantos encontra, e não finge amizade, nem reflete formalismo e muito menos ainda esconde desejos inconfessáveis. Ecoa-lhe no coração a palavra do mestre: “Seja a vossa palavra sim, se for sim; não, se for não. Tudo o que passar disso vem do Maligno” (Mt 5,37).

O cristão vive em família com esposa ou esposo, filhos como tantos. Olhando para sua esposa ou esposo respectivamente, recorda que mantém com ela, com ele uma relação-símbolo do amor de Cristo à sua Igreja, Não está isento dos momentos difíceis de relacionamento, mas acredita na força do amor mútuo, do sacramento do amor maior daquele em quem confiou em última instância. “O que diremos, pois? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31).

O cristão sofre, como tantos, a traição de um esposo ou esposa, de um filho ou de um amigo. Olha para quem o traiu com o mesmo olhar de perdão, de ternura, de esperança que Jesus lançou a Pedro depois da traição no pátio de sumo sacerdote.

O cristão pertence à sociedade do trabalho. Ocupa-se com as mais diversas atividades. Nisso comunga com os seus irmãos. Lembra-se de que o apóstolo Paulo insistia na necessidade de trabalhar: “Enquanto estivermos convosco, nós vos incutimos a máxima: quem não quiser trabalhar, não terá direito de comer. É que ouvimos que entre vós há alguns que vivem na ociosidade, sem fazer nada, ocupados apenas de coisas fúteis. A estes tais ordenamos e exortamos em Nosso Senhor Jesus Cristo: trabalhem tranquilamente e comam o pão que ganharem” (2Ts 3,10-12). A motivação do trabalho, a forma de levá-lo, o sentido que lhe dão mostram a originalidade cotidiana do cristão.

O cristão vive na sociedade da moeda, do lucro, do capital. Não prescinde do dinheiro para sua vida e a da família. Ganha-o honestamente. Mas sobretudo deixa-se tocar pelo espírito das bem-aventuranças de simplicidade, de confiança, de liberdade. A comida, o corpo, a veste não devem preocupá-lo a ponto de esquecer-se da generosidade de Deus que cuida do lírio, dos pássaros. A admoestação de Jesus confronta-o com o pagão: “São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Não vos preocupeis com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas próprias dificuldades. A cada dia o seu peso” (Mt 6,25-34).”[1].

Há em todos nós fidelidade e criatividade suficientes, muito mais que imaginamos, para podermos continuar esta reflexão-compromisso.

 

Organizou: Pedro José, Chapadinha, 19-07-2007.

Caracteres (espaço incluídos): 4593


[1] LIBANIO, J. B., Olhando Para o Futuro – Prospectivas teológicas e pastorais do Cristianismo na América Latina, Edições Loyola, São Paulo, 2003, pp. 155-156.

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