OS LEITORES DOS ESCRITOS CRISTÃOS – por Bart D. Ehrman

 

Pílula Bíblica 10

 

Os leitores dos escritos cristãos

 

(…)Mas, como vimos, muitos tipos de livros estavam sendo escritos e lidos por cristãos nos primeiros séculos, e não apenas os livros acolhidos no Novo Testamento. Havia outros evangelhos, epístolas e apocalipses; havia registros de perseguições, atas de martírio, apologias da fé, instruções eclesiais, ataques aos hereges, cartas de exortação e ensino, exposições das escrituras – toda uma gama de literatura que ajudava a definir o cristianismo, levando-o a se tornar a religião que veio a ser. Seria de grande valia, a essa altura de nossa discussão, fazer uma pergunta básica sobre toda essa literatura: quem eram, realmente, os seus leitores?

No mundo moderno, essa pareceria uma pergunta muito esquisita. Se certos autores estão escrevendo livros para os cristãos, então os que leriam esses livros seriam, é o que se depreende, os cristãos. Mas quando a pergunta se aplica ao mundo antigo, ela tem um alcance especial porque, no mundo antigo, a maioria das pessoas não sabia ler.

O letramento é parte integrante da vida para nós que vivemos no Ocidente moderno. Lemos o tempo todo, todo dia. Lemos jornais e revistas, livros de todos os tipos – biografias, romances, textos práticos, auto-ajuda, livros de dieta, religiosos, filosóficos, história, memória, e por aí vai. Mas nossa atual intimidade com a linguagem escrita tem muito pouco a ver com as práticas de leitura e as realidades da Antiguidade.

Estudos sobre o letramento demonstram que aquilo que hoje conhecemos por letramento universal é um fenómeno moderno que só surgiu com o advento da Revolução Industrial[1]. Foi apenas quando as nações divisaram benefício económico na habilidade de leitura de todos e de cada um que se decidiram a investir recursos maciços – especialmente tempo, dinheiro e recursos humanos – requeridos para assegurar que todos recebessem alfabetização básica. Nas sociedades não-industriais, os recursos eram prioritariamente alocados para outras coisas, e a alfabetização não teria auxiliado nem a economia nem o bem-estar da sociedade como um todo. Como consequência disso, até o período moderno, quase todas as sociedades apresentavam apenas uma pequena minoria da população capaz de ler e escrever.

Isso se aplica até mesmo às sociedades antigas que estimulam a leitura e a escrita – por exemplo, a Roma dos primeiros séculos cristãos, ou até mesmo a Grécia do período clássico. O melhor e mais influente estudo sobre o letramento nos tempos antigos, feito pelo professor da Universidade de Columbia, William Harris, indica que nos tempos e lugares mais propícios – por exemplo, Atenas à altura do período clássico do século V A.E.C. -, as taxas de alfabetização raramente atingiam de 10 a 15% da população. Transpondo os números, isso significa que, nas melhores condições, de 85 a 90% da população não podia ler ou escrever. No século I cristão, na época do Império Romano, as taxas de alfabetização podem ter sido mais irrisórias ainda[2].

Consequentemente, mesmo definir o que significa ler e escrever se torna uma questão complicada. Muitas pessoas que podem ler são incapazes de redigir uma sentença, por exemplo. E o que significa ler? As pessoas podem ser consideradas alfabetizadas se entendem o sentido das tirinhas humorísticas, mas não o do editorial de um jornal? As pessoas podem afirmar que são capazes de escrever se sabem assinar o nome, mas não conseguem copiar uma página de texto?

(…) quantas pessoas podiam realmente ler textos e entender o que eles diziam? É impossível chegar a um número exato, mas parece que a percentagem não seria muito alta. Há razões para pensar que, nas comunidades cristãs, as taxas podiam ser ainda mais baixas do que na população geral. Isso porque se constata que os cristãos, especialmente nos primórdios do movimento, provinham em sua maioria das classes menos letradas e mais baixas. Naturalmente, houve exceções como o apóstolo Paulo e os outros autores cujas obras constituíram o Novo Testamento e eram, obviamente, escritores habilidosos; mas em sua maioria, os cristãos eram provenientes das fileiras dos analfabetos.

Isso é seguramente verdade para os cristãos da primeira hora, que teriam sido os apóstolos de Jesus. Nos relatos dos Evangelhos, descobrimos que a maioria dos discípulos de Jesus eram simples pessoas rústicas da Galiléia – pescadores pouco instruídos, por exemplo. Dois deles, Pedro e João, são claramente chamados de “analfabetos” no livro dos Atos dos Apóstolos (4,13). O apóstolo Paulo indica a sua congregação coríntia que “não muitos de vocês eram sábios segundo os padrões humanos” (1 Cor 1,27) – o que deve significar que bem poucos eram bem instruídos, não muitos. À medida que adentramos o século II cristão, as coisas não parecem sofrer grandes mudanças. Como já apontei, alguns intelectuais se converteram à fé, mas a maioria dos cristãos vinha das classes mais baixas, não instruídas”.

 

 

FONTE: EHRMAN, Bart D., O que Jesus disse? O que Jesus não disse?

– Quem mudou a Bíblia e por quê, Editoral Prestígio,

Rio de Janeiro, 2006, pp.46-48;49-50.

Caracteres (espaço incluídos): 4892


[1] Ver especialmente: HARRIS, William V. Ancient literacy. Cambridge: Harvard University Press, 1989.

[2] Para as taxas de alfabetização entre os judeus na Antiguidade, ver: HEZSER, Catherine. Jewish literacy in Roman Palestine. Tübingen: Mohr/Siebeck, 2001.

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