ECLESIASTES por Harold BLOOM

 

 

Pílula Bíblica 09

 

Apreciação de Eclesiastes, por Harold BLOOM:

 

“O Eclesiastes é pós-exílio e, provavelmente, foi composto por um único sábio, em data não posterior ao ano 200 antes da Era Comum. A tradução alexandrina do texto da Bíblia, a Septuaginta, verte a palavra Koheleth na forma ekklesiastes, que significa “congregação”. Koheleth, evidentemente, significava “orador”, ou “pregador” que se dirige a uma assembléia ou congregação. A improvável identificação com o rei Salomão baseia-se na referência encontrada em I Reis 8,1, em que Salomão prega aos ilustres de Jerusalém.

De vez que o Eclesiastes é o livro da Bíblia que mais aprecio, pretendo sobre ele me deter. Meu ideal de crítico literário, Samuel Johnson, comovia-se profundamente com o Eclesiastes. Ademais, um livro que versa sobre sabedoria e literatura, necessariamente, reflete acerca do Coélet, pois tal elemento vem à mente, sempre que se fala de literatura da sapiência.

Segundo a tradição, o Cântico dos Cânticos salomônico foi incluído no cânone da Bíblia Hebraica, primordialmente, porque o grande rabino Akiba teria insistido na inclusão. Na verdade, espanta-me ainda mais o fato de Coélet ter sido incluído no cânone, pois o foco principal é a mortalidade, e o livro considera o destino e o acaso (não mencionados em outros livros bíblicos, visto que são conceitos pagãos) fatores decisivos no estabelecimento da data da morte. Em certos trechos, Coélet chega a parecer um estóico helenista, mas o judaísmo normativo forma a base de seu trabalho. Especula-se que alguns desses elementos normativos sejam interpolações tardias, o que eu questiono, estritamente com base na experiência literária obtida através de inúmeras releituras da obra. Do início ao final, o livro revela uma personalidade definida e idiossincrática, a exemplo do que se constata em Jeremias ou em I Isaías.

Tanto quanto muitos outros leitores, constatei que complicações de saúde, que há cerca de um ano puseram em risco a minha vida, propiciaram-me uma perspectiva mais aguçada para a releitura de Coélet. A percepção do Pregador, segundo a qual a vida é uma dádiva extraordinária quanto declinante, pareceu-me intensificada, a partir de experiências recentes, de caráter público e privado, e meu reconhecimento da amplitude da consciência do Pregador é hoje muito maior. Embora Coélet tenha interesses religiosos, estes são heterodoxos. Deus, jamais chamado de Javé no Eclesiastes, parece um tanto distante. Contudo, o Pregador alude a trechos de Génesis e do Deuteronômio, por ele astutamente modificados e apropriados”.

 

 

FONTE: BLOOM, Harold, Onde encontrar a sabedoria?, Editora Objetiva,

Rio de Janeiro, 2005, pp.34-36.

Caracteres (espaço incluídos): 2551

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