«PORTUGAL, HOJE: O Medo de Existir» – José GIL

 

«PORTUGAL, HOJE:

O Medo de Existir»

 

(…minhas incertas re-leituras de José Gil, após o 10 de JUNHO, vivendo no BRASIL, “missionando” há quase 6 anos…)

 

1. Começando lá atrás. No dia 5 de Janeiro de 2005, depois de ter conversado, longamente, com o Quim, e depois, com a Leonor, e o seu amigo Pedro; conversas essas de café, olhando a Ria de Aveiro…, á procura de um «lugar incomum». E lembro de tudo isso, porque sou um português inscrito, «do país da não-inscrição». Comprei e anotei, no mesmo dia, das pródigas conversas, no centro de Aveiro, o número especial do “Le nouvel Observateur”, sobre os «25 Grandes Pensadores do Mundo Inteiro», que guardo religiosamente, até hoje, como mapa guia-provisório. Aí, Eduardo Lourenço, de quem já li o “Labirinto da Saudade”, “Heterodoxias”, e ETC, (o meu primeiro trauma como «português» que quer pensar “a coisa” como ela é… foi com o Sr. Eduardo, um caso de amor-imperfeito-á-primeira-vista…), faz a apresentação exemplar de JOSÉ GIL, como “Le philosophe de la chair” (pp.38 e 40). Compro esse tipo de revistas – “que não se aconselha aos amigos, em nenhuma circunstância… e se fala que se leu em segredo tipo “pecado mudo” […nesta ironia o livro, que iremos fazer releitura crítica, está pleno de razão!] – porque são a maneira mais barata que conheço, para não morrer ignorante, e não para não passar por pedante (?), rima e será verdade. Aí, sempre um aí, encontrou-me esta declaração: “C’est une constante des propos de José Gil, de sa vision: l’intuition du rôle de la «non-pensée» comme soubassement de la pensée, pas exactement à la manière du Vouloir de Schopenhauer mais comme «corps pensant». Ou plutôt corps dansant. La chair, d’évocation husserlienne ou chrétienne – parole incarnée et rédemptrice -, s’est change, dans son horizon, en «corps dansant» de mémoire nietzschéenne. Le danseur est une figure récurrente de son imaginaire. Ce n’est pas un hasard si Gil place Paul Valéry parmi ses penseurs préférés” (p.40). E como andava na minha Agenda de 2006, uma frase epígrafe de St. Agostinho: Aprenda a dançar, senão os anjos no céu não sabem o que fazer com você”, fiz uma associação do tipo «insight»: buscando o conceito-fronteira, de que José Gil deveria ser o mestre; e não saberia onde ele me levaria, pouco importava, nesse dia, eu queria apenas ir-em-frente: COPRO + DANÇA, essa era a motivação. Pensei, finalizando, temos o caldo entornado, vou ter de ler esse desconhecido como obrigação moral.

 

2. Queria à força – o português só lê assim !?… – ler qualquer coisa de José Gil, mas regressei de férias-trabalho, ao Brasil, sem nenhum livro dele nas malas, cheias de livros, foi um adiamento com tempo determinado. Entretanto, no dia 5 de Novembro de 2005, tinha entre mãos, pelo amigo Zacarias, que nos visitava no campo de missão, o livro oferecido por pedido meu, “Portugal, Hoje: O Medo de Existir” (Editora Relógio D’Água, Lisboa, Original: Novembro de 2004, a mim coube a 9ª Reimpressão: Julho de 2005, pp.142). Comecei a saborear o estilo e seu autor-pensador; e lá num dia de Maio de 2006, no meu quarto, certamente a altas horas, terminei a leitura e fez-se SILÊNCIO, ponto ZERO. Foi um colapso. Isso, também, ficou «inscrito» no livro, mas tinha definitivamente cortada ao meio a minha Alma Portuguesa. O Filósofo da Carne/Corpo, tinha cortado na minha própria carne ou corpo. A dor era psicológica, desencantada e insuportável, como todas as dores maiores. Não me senti mais português. Tinha orgulho em não ser português (!?). Pelo menos como o livro me ajudou a discernir. Pensamentos de raiva sub-consciente afloraram. Só reservava a Língua, – e essa defesa não é original, paciência… – essa, jamais a poderei abandonar; é uma língua-mãe, o português, agora de Portugal e do Brasil, e essa expressão diz mais, do que se possa pensar aqui. No meio de uma cultura diferente, eu tinha perdido as minhas raízes culturais, com essa leitura de José Gil, a primeira e única, infelizmente, até ao presente. Do conceito/experiência/vivência de Terra Prometida, Lugar de Nascimento, pela minha infância e parte da adolescência «cigana», discriminação positiva, eu já biograficamente me encontrava a salvo. Mas dessa dor-leitura-meditação, eu não queria ser anestesiado de modo nenhum.

 

3. Agora sim, o tempo já amadureceu o suficiente, e tenho o imperativo de recolher todas as pedradas que apanhei no espírito e no carne/corpo, dessa leitura primordial. Vou pegar na palavra PORTUGAL, esse é o nome do «vírus», e através das letras, fazer o meu corpo de delito. Assim será P-O-R-T-U-G-A-L (oito pedradas na noite escura). P. (de PODER); O. (de “OU tudo ou nada “); R. (de Ressentimento); T. (de TV e afins); U. (de Última nota…); G. (de Graffiti ); A. (de Abril, o 25); e L. (de Lei e não Liberdade). Sei que pela forma se toma conhecimento de parte do conteúdo e não o inverso, pois para mim, o conteúdo esconde a impossibilidade de revelar a forma demarcada. É um risco da minha leitura «à margem». Melhor «da margem» onde estou e sou, agora, mais uma existência singular, que se recusa a deixar de começar a pensar a «coisa» em si mesma.

P. (de PODER) – “(…) Refiro-me ao medo, à passividade, à aceitação sem revolta do que o poder propõe ao povo. Como se, tal como antigamente, a força de indignação, a reacção ao que tantas vezes aparece como intolerável, escandaloso, infame na sociedade portuguesa (tolerado, aceite, querido talvez pela maneira como as leis e regras democráticas se concretizam na sociedade, quer dizer no húmus das relações humanas), se voltasse para dentro num queixume infindável quanto à «república das bananas» ou «a trampa» que decididamente constituiria a essência eterna de Portugal, em vez de se exteriorizar em acção” (pp.39-40).

O. (de “OU tudo ou nada “) – “A exclusão total não é só um fantasma das grandes cidades altamente desenvolvidas, tornou-se uma realidade de todos os dias e muito mais vasta. A norma que marca a fronteira entre a integração e a exclusão não diz: «Ou tudo ou nada» (porque tudo, só muito poucos o têm), mas indica a separação que faz de um homem integrado um ser social normal e de um excluído um pária, alguém que é visto como vivendo em condições sub-humanas – e que, por isso mesmo, vai perdendo qualquer coisa da «essência do género humano». Ou seja, a exclusão não é apenas «social», ou «do mercado do trabalho», ou «racial», ou «cultural», ou «psicológica», mas atinge o cerne da humanidade do homem. (Que ausência de humanidade não é por nós sentida no arrumador toxicodependente, sujo, esfarrapado, que se arrasta de carro para carro?)” (pp.115-116).

R. (de Ressentimento) – [No capítulo “Queixume, Ressentimento, Invejas” (pp.90-102), e no geral do livro, parece que predomina a INVEJA (e só o país dos INVEJOSOS), mas eu fico com o R. de Ressentimento do autor, porque quero a causa e não a consequência. É a minha proposta de análise.] – “O ressentimento e o ódio alimentavam o queixume, num discurso recorrente até à exaustão: «este país é uma merda», «está entregue aos bichos», etc. E, de cada vez, o sujeito da enunciação excluía-se do conjunto nomeado, como se lhe não pertencesse. Era uma maneira (um gesto linguístico mágico) de se separar, de se diferenciar de todo aquele mal detestado em que se encontrava mergulhado. Por outro lado, nomeava-se assim o inominável: o mal, a doença metastásica que atacara o país” (p.92).

T. (de TV e afins) – “A televisão portuguesa é como toda a gente sabe (e com raríssimas excepções, que toda a gente também conhece) uma pura miséria, uma máquina de fabricação e sedimentação da iliteracia. E a rádio e a imprensa (sempre com as excepções que há em tudo) fecham constantemente as aberturas mínimas, as fendas e as brechas por onde algum ar fresco, alguma força livre pudessem passar ainda” (pp. 33-34).

U. (de Última nota ) – [Como o livro é uma sova do princípio ao fim, sem tréguas, ao “Egotismo” e/ou “Egolatria”, o dicionário não me ajuda a decidir, no fio-da-navalha dum impossível recalcamento, cabe a generosidade do autor-pensador, em reconhecer o POSITIVO, que também o «Há» na nossa “realidade portuguesa” (minha expressão), mas que está fora do “pequeno escrito”… Reproduzimos, para erradicar a imparcialidade e não a neutralidade, a 4ª Nota final do autor, últimas e sugestivas palavras da obra] – “4. Enfim, contrariamente ao que pode parecer, nenhum pressuposto catastrofista ou optimista quanto ao futuro do nosso país subjaz ao breve escrito agora publicado. Se não se falou «no que há de bom», em Portugal, foi apenas porque se deu relevo ao que impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade. Seria mais interessante, sem dúvida, mas também muito mais difícil, descobrir as linhas de fuga que em certas zonas da cultura e do pensamento já se desenham para que tal aconteça. Procurou-se dizer o que é, sem estados de alma, mas com a intensidade que uma relação com este país supõe” (p.142).

G. (de Graffiti) – [Merecem destaque as palavras de abertura do apelativo e taxativo capítulo: “O país da não-inscrição” (pp.15-23)] – “Em Portugal nada acontece, «não há drama, tudo é intriga e trama», escreveu alguém num graffiti ao longo da parede de uma escadaria de Santa Catarina que desce para o elevador da Bica. Nada acontece, quer dizer, nada se inscreve – na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico” (p.15).

A. (de Abril, o 25) – “O 25 de Abril não libertou os corpos, senão formalmente, como não alargou o horizonte dos espíritos, senão teoricamente. Não foram os extraordinários e temerários princípios de liberdade substancial que os vários «processos revolucionários» propuseram e quiseram inscrever (pelo menos na Constituição), que transformaram o espaço dos corpos encolhido e enquistado pelo medo e os hábitos de submissão interiorizados durante décadas. A democracia formal criou as condições para a sua transformação mas não a realizou. (…)“ (p.67).

E L. (de Lei e não Liberdade) – “O que faz então o português esperto? Nada. «Anda por aí.» Reserva-se o direito (privado e, por isso, humano por essência) de não obedecer à lei. É a sua tendência à não-inscrição que opera. Faz desse espaço de tolerância um espaço de não-inscrição por excelência. Daí a verdadeira repugnância em cumprir as leis – que não deriva de um qualquer espírito de rebeldia ou de negação do poder, mas da vocação lusitana para o não-acontecimento. De resto, essa repugnância está tão entranhada que não só do lado do cidadão, mas também do lado do poder ela se manifesta. Em Portugal não se cumpre a lei quando se pode, mas pouco se faz para a fazer cumprir” (p.85).

 

4. (Des)consideração terminal – Não é apenas «mais um» diagnóstico cru e cozido; é proposta de tratamento sem crueza e com cozedura. Não são apenas «desafios de intelectual»; são «caminhos práticos», que urge assumir em direcção a um Norte de desenvolvimento sustentado na Ética Comunitária, a única desejável e possível. Os meus máximos, são mínimos para o(s) Outro(s). [Sem a perda do contexto. Aqui cabe a descodificação da prática de “acusação-defesa” (no caso suicídio inconsciente para quem a profere (?) – na argumentação tipo: “- Pois missão no Brasil… pois, isso sabe a fuga, o difícil é ficar aguentar aqui na Europa…”. Depois de tudo, talvez esse indivíduo ressentido, mereça ser informado que há projectos maiores que o seu umbigo; e que a Inveja é pecado capital. E caso não tenha fé em si, então, bom proveito na leitura do livro do José Gil; ele o escreveu para essa «figura: o típico burgesso português», como possibilidade de tratamento. Auto-ajuda e não auto-engano. O autor sentencia: “«auto-estima» (expressão horrível, que diz o que diz”, a que, parece, tanto se aspira, recobre a falta real de uma sólida autoconfiança”. (p.112)].

Sozinho eu não sei dançar. Não sei se é possível aprender a dançar só. A essência da Dança é dom, posse e partilha. Só sei que depois de meditar o “Portugal, Hoje: O Medo de Existir”, sou incapaz de dançar qualquer dança portuguesa. Morra essa prática/ilusão de Portugal! Vivam os (as) Portugueses (as) com Lucidez! Recuso o «burgessismo», estou vacinado e vigilante! Agradecido pelo Recado.

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 11-06-2007.

Caracteres (espaço incluídos): 12.011

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