A experiência da GRAÇA

 

A experiência da GRAÇA

 

Teremos feito alguma vez, verdadeiramente, experiência da graça? Não queremos aludir, tenha-se isso em conta, a um sentimento genérico de devoção ou a uma exaltação religiosa, de tipo festivo, nem sequer a qualquer consolação interior de doçura, mas à experiência da verdadeira e genuína graça, isto é, àquela visita do Espírito santo, do Deus Trino que, em Cristo, graças à sua encarnação e imolação na cruz, se tornou realidade […]

Ficamos alguma vez em silêncio, se bem que desejássemos defender-nos, quando fomos injustamente ofendidos? Perdoamos alguma vez, sem termos recebido por isso qualquer recompensa e inclusivamente dando conta de que o nosso perdão silencioso era aceite como uma coisa natural? Obedecemos alguma vez não por termos sido obrigados a fazê-lo ou porque, de outro modo, teríamos passado um mau bocado, mas, pelo contrário, unicamente aquele fato misterioso, silencioso e incompreensível a que nós chamamos Deus e a sua vontade? Sacrificámo-nos alguma vez sem receber qualquer agradecimento, qualquer reconhecimento e nem sequer o sentimento de satisfação interior? Ficamos alguma vez completamente sós? Decidimo-nos alguma vez sobre uma coisa, ouvindo apenas o ditame da nossa consciência, quando estávamos completamente sós e não podíamos falar com ninguém nem desabafar, embora sabendo bem que tomávamos uma decisão com plena responsabilidade que iria comprometer-nos para toda a vida e eternamente? Procuramos alguma vez amar a Deus mesmo quando não chega até nós qualquer onda cheia de sentimento entusiasta, quando já não é possível confundir-nos a nós mesmos e o nosso impulso vital com a voz de Deus, quando quase parecemos morrer, por esse amor, e quando o nosso amor se parece com a morte e a angústia absoluta e temos quase a sensação de gritar no vazio e na ausência total de quem nos escute e nos parece mergulhar num terrível abismo, onde tudo se torna incompreensível e sem sentido ? Cumprimos alguma vez um dever, quando tínhamos o sentimento abrasador, ao cumpri-lo, de estarmos verdadeiramente a negar-nos a nós mesmos e a aniquilarmo-nos como pessoas e a cometermos uma estupidez, pela qual nunca ninguém iria agradecer-nos? Fomos bons, alguma vez, com alguém, sabendo, de fato, que dessa pessoa nunca nos chegaria qualquer eco de gratidão nem compreensão consciente, que nunca seríamos recompensados, nem sequer pelo sentimento de termos sido altruístas, honestos, etc.?

Procuremos, nestas experiências da nossa vida, nas experiências pessoais, aquelas em que nos aconteceram coisas semelhantes. Pois bem, se conseguimos encontrá-las, teremos feito, então, experiência daquele verdadeiro espírito de que acima falámos.

 

FONTE: RAHNER, Karl, (1904-1984), “A fé no meio do mundo”, in CHRISTUS – Enciclopédia do Cristianismo, Editorial Verbo, Lisboa-São Paulo, 2004, p.389.

 

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