SOBRE O PODER III

 

 

Vamos ressuscitar: (des)considerações

sobre poder

 

(Contexto – Parte III)

 

 

Eu, sentindo-me mais pequeno entre os pequenos, gostava de terminar contando uma história[1] a todos os Poderosos desta Terra e a todas as Autoridades que encaminham para o Céu. História sobre a visão do exercício de Poder. Melhor, sobre o DESEJO de Poder, feito do fazer que não se faz. Essa história, “o rei e omeleta” ou “omeleta de amoras”, pertence a Walter Benjamim. É o meu «Contexto» dirigido a todos “Os Servos da Vinha do Senhor”, numa leitura desapaixonada.

“Era uma vez um rei que chamava a si os tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz. Então, um dia, mandou chamar seu cozinheiro predilecto e disse-lhe: “Por muito tempo tens trabalhado para mim com fidelidade e tens-me servido à mesa as mais esplêndidas iguarias. Porém, desejo agora uma última prova do teu talento. Deves fazer-me uma omoleta de amoras igual àquela que saboreei há 50 anos, em minha mais tenra infância. Naquela época meu pai travava guerra contra seu perverso inimigo a oriente. Este acabou vencendo, e tivemos de fugir. E fugimos, pois, noite e dia, meu pai e eu, através de uma floresta escura, onde afinal acabamos por nos perder. Aí morava uma velhinha que amigavelmente convidou-nos a descansar, tendo ela própria, porém, ido ocupar-se do fogão. Não muito tempo depois estava à nossa frente a omeleta de amoras! Mal tinha levado à boca o primeiro bocado, senti-me maravilhosamente consolado, e uma nova esperança entrou no meu coração. Já era rei quando mais tarde mandei procurá-la, vasculhei todo o reino, não encontrei nem a velha nem qualquer outra pessoa que soubesse preparar a omeleta de amoras. Agora, quero que atendas este meu último desejo: faz-me aquela mesma omeleta de amoras! Se o cumprires, farei de ti meu genro e herdeiro de meu reino. Mas, se não me contentares, deverás morrer”. Então o cozinheiro disse: “Majestade, podeis chamar logo o carrasco. Conheço, é verdade, o segredo da omeleta de amoras e todos os seus ingredientes, desde o trivial agrião até o nobre tomilho. Sei empregar todos os condimentos. Sem dúvida, há também o verso mágico que se deve recitar ao bater os ovos, e sei que o batedor de madeira de buxo deve ser sempre girado num só sentido. Contudo, ó rei, terei de morrer! Minha omeleta não vos agradará ao paladar, jamais será igual àquela que vos veio pelas mãos da velhinha. Faltará o perigo da batalha e o seu picante sabor, a proximidade do pai na floresta desorientada, a emoção e a vigilância do fugitivo perdido. Não será omoleta comida com o sentido alerta do perseguido. Não terá o descanso no abrigo estranho e o calor do fogo amigo, a doçura da inesperada hospitalidade de uma velha. Não terá o sabor do presente incomum e do futuro incerto”. Assim falou o cozinheiro. O rei, porém, calou um momento e não muito depois consta haver dispensado dos serviços reais o cozinheiro, rico e carregado de presentes”[2].

Tentei escrever esta série de três artigos para pessoas realmente «leigas», ou seja, «irmãos» da minha condição. Ficam admirados quando digo que a condição de «irmão» é a única possível e útil na Igreja de Jesus. Nela se fundamenta todos os ministérios e carismas, desde o nosso baptismo. Não é um resumo grosseiro; é uma postura Anti-poder, que o Poder não quer aceitar. São “transitórias tradições” essas condições de: “religioso”; “clero”; “secular”; “consagrado”; e outras mais que possam aparecer, serão aparências e não essência. Raios de sol, mas não o Sol. Estes textos aproximativos e críticos são para purificar o Poder-instituição (onde estou incluído), para chegarmos ao Poder-serviço. São textos para o Amanhã, na certeza do meu compromisso Hoje. Nesta história profunda de Walter Benjamim, encontro o que não posso sintetizar no aprofundamento e na argumentação, sobre uma mudança de mentalidade e paradigma que a maioria diagnosticou sobre o Poder, mas só uma minoria tem a coragem de levar até ao fim no tratamento. Que não padeçamos de muitas ideias e pouca execução. Vamos juntos fazer a Ressurreição da Glória, Páscoa todos os dias, pois o Poder morreu na sexta-feira santa!

 

AUTOR: Este é o terceiro artigo de uma série de três (I Pretexto; II Texto; III Contexto) que escrevi sobre o tema do "poder” como uma contribuição para o debate “dentro” e “fora” da Igreja (suas relações). Pedro José, Chapadinha, 17-04-2007. Caracteres (espaço incluídos): 4060 –  19:54


[1] Outra possibilidade para além da história, que não foi a escolhida, era a indicação da leitura da “Carta Pastoral do Papa João, no começo do novo milénio, 1º de janeiro de 2001”, de HÄRING, Bernhard, É possível mudar: em defesa de uma nova forma de relacionamento na Igreja, Editora Santuário, Aparecida, 1994 [original 1993], pp.93-99.

[2] Cfr. A versão estabelecida a partir de duas traduções brasileiras: “O rei e a omelete” (in Folha de São Paulo, Folhetim 22-01-1984) e “Omelete de amoras” (in Rua de mão única), do conto de Walter BENJAMIN, que foi abreviado por mim, e se pode consultar na íntegra em: GONÇALVES F., José Moura, “Jean Laplanche: A omelete e o seio”, in Viver mente & cérebro – Memória e Psicanálise, nº6, Ediouro, São Paulo, s.d., pp.58-59.

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