SOBRE PODER II

 

 

Vamos ressuscitar: (des)considerações

sobre poder

 

(Texto – Parte II)

 

 

[0.] Um leitor atento e bem informado do artigo anterior como Pretexto (Parte I), agora, diante deste Texto (Parte II) concluirá confirmando a máxima de que nada é pior do que a quase-verdade, ou a meia-verdade. Será mesmo assim? Daremos uma mão á hermenêutica? Ou ela a nós?

[1.] O Poder não deixa ninguém indiferente. Perante ele sempre se assume alguma posição. Muitos vivem para abocanhá-lo; outros, para combatê-lo, outros ainda (na Igreja e também fora), para se submeterem a ele, num carreirismo anti-evangélico. Mas a maioria convive, simplesmente, com ele, no reconhecimento ou na resignação, ou, o mais das vezes, na inconsciência e na passividade. Na prática, o mais comum talvez seja misturar as diferentes atitudes, ao sabor da situação. O Poder, hoje, não é tanto dominação quanto controle. Aparentemente, manipula mais do que reprime. Mas a Igreja faz diferente e faz a diferença. Por isso, queiramos ou não, vivemos todos debaixo do Poder projectado em normas, leis, estatutos, mandamentos, sabendo que, desobedecendo, virão multas, penalidades, castigos, reprovação, pecados, censura, repressão. Mão de ferro, em brasa. Onde houver Poder haverá hierarquia, literalmente sacralização – para o inferior – do poder superior e isso em qualquer situação ou condição[1]. Cabe perguntar, como se reproduzem as relações de Poder (na Igreja)?

[1.1.] O Poder não é um lugar, não é um status, não é um privilégio; é uma Relação[2]. Ou, mais precisamente, a correlação de forças que determina quem, num dado momento, detém o Poder. Qualquer esfera de Poder reveste quem o ocupa de uma Autoridade, uma identidade, que o faz sentir-se acima do comum dos mortais. É mais tentador que sexo e dinheiro. Por isso, o Poder, qualquer poder, só pode ser controlado por outro poder[3]. Na Igreja de Jesus Cristo, diz-se que o Poder é Serviço (relação de serviço, ministerial). Está muito por fazer, nesta realidade, que é quase TUDO. Vamos continuar a convertermo-nos ao Evangelho, “…o mais importante entre vós seja como o mais jovem, e quem manda seja como quem serve” (Lc 22, 26; cfr. Mt 20,26-28; cfr. Mc 10, 43-45).

[2.] No meu avesso, mais interior, digo o que sou por aquilo que leio e vivo. Essa normalidade é a minha anormalidade. Gosto, também, de apresentar-me como uma pessoa com dois interesses: conversar e ler. Mas perante tanto ABUSO, no exercício de Poder, apetece-me, existencialmente, partir das minhas vísceras… e, gritando, deixar escrito na areia da minha fragilidade: “Aqui eu faço o que bem entendo, levanto quando quero, trabalho quando quero, repouso, visto como e se quero, como quero, rezo como quero, vivo, morro como quero. Livre de horários, compromissos, promessas, perturbações do próximo, dos olhos, das broncas, de julgamentos que não sejam o de Deus e da minha consciência. Percebo o que perco, estou aqui não para uma aventura. Estou aqui para sentir-me livre. Saboreei o grande valor da liberdade e o degustei”[4]. Liberdade do peso do estranho, das convenções sociais, também das obrigações/opressões religiosas.

[2.2.] Se tenho de continuar (e vou continuar) a engolir “SAPOS” de Poder (aponto exemplos, não necessariamente por esta ordem: 1º Discriminação da Mulher, negando-lhe o acesso ao serviço-poder-ministério sacerdotal; 2º Pastoral dos recasados; que não passa de “rebuçados/pílulas” de infantilização, quando se nega o direito de comungar; 3º Gestão económica/financeira que se sustenta num “servilismo/funcionalismo” laboral, com indícios de “simonia reciclada”; 4º “Teologia de catecismo” (especialmente na Moral), fundada mais “nos mandamentos de Deus do que no Deus dos mandamentos”, que Jesus Cristo mostrou nos 4 Evangelhos, prova irrefutável do “pluralismo de facto e de iure”, na Tradição e na Teologia). Então, obrigado, mas eu mesmo, “os tempero e asso”, ao meu paladar.

Se tenho de perder para o “Inimigo”, junto-me e durmo com ele!? Vou miná-lo e subvertê-lo, por implosão não-violenta, mas real… desejo-o, poderosamente. Entretanto, ironizo: “-Reforma aos 45 anos, não mais, não menos!? Se compulsivamente não for antes…”

 

AUTOR: Este é o segundo artigo de uma série de três (I Pretexto; II Texto; III Contexto) que vou escrever sobre o tema do "poder” como uma contribuição para o debate “dentro” e “fora” da Igreja (suas relações). Pedro José, Chapadinha, 17-04-2007. Caracteres (espaço incluídos): 4069


[1] Cfr. VANNUCCHI, Aldo, Cultura Brasileira: O que é, como se faz, Universidade de Sorocaba-Edições Loyola, São Paulo, 32002, pp.63-64.

[2] Como leituras de aprofundamento indico duas pequenas/grandes obras, de dois teólogos que dispensam apresentações, e cujos títulos revelam a necessidade de renovação “já” em curso: HÄRING, Bernhard, É possível mudar: em defesa de uma nova forma de relacionamento na Igreja, Editora Santuário, Aparecida, 1994 [original 1993], pp.112; GONZÁLEZ FAUS, J. Ignacio, “Nenhum bispo imposto” (S. Celestino, papa): As eleições episcopais na história da Igreja, Ed. Paulus, 1996 [original 1992], pp.149.

[3] Cfr. BETTO, Frei, A Mosca Azul, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2006, pp. 89 e 156.

[4] NEGRI, Teodoro, Augusto, Eremita na Selva Amazónica – Diário, Editora Mundo e Missão, São Paulo, s.d., pp.76-77.

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