SOBRE PODER

 

 

Vamos ressuscitar: (des)considerações

sobre poder

 

(Pretexto – Parte I)

 

 

Há uma lista – que não quero crer, tendo o desejo profundo que não possa existir – de 450 teólogos[1] condenados pelo Vaticano desde o início do pontificado de João Paulo II, á qual o actual papa (como cardeal, sabemos da sua eficiência) acrescentou, recentemente, mais um: Jon Sobrino, teólogo que foi assessor de Dom Oscar Romero até o martírio deste e, em 1989, não morreu junto com Ignácio Ellacuría, e outros padres jesuítas da sua comunidade, mais a cozinheira e sua filha de 15 anos, que foram assassinados pelo Esquadrão da Morte, porque estava viajando, em trabalho fora da sua comunidade. A “lista” e Jon Sobrino são o pretexto, o texto, e também, o contexto, de uma série tripartida. Para perguntar: Que Poder é este na Igreja? Autoridade em nome de quê? Que justificativas sagradas para? Nada de presunção jornalística… mas uma reflexão alternativa ou nem tanto assim.

Da tal lista vermelha, como o sangue do cordeiro, não a radicalizo mais na sua crueza, recordo apenas alguns nomes exemplares. Pleno de boa-fé, entre parenteses, coloco anotações pessoais: Eis a sucinta enumeração: Hans Kung em 1975 e 1980 [leitura aconselhada como infalível pelo meu professor de eclesiologia, ainda hoje recordo seus ensinamentos e sua postura eclesial]; Jacques Pohier em 1979 [li no Brasil no campo pastoral e para dentro do confessionário, em segunda mão, por Carlos Morano[2]. Espero um dia poder ler: “Quand je dis Dieu” (1997), obra que lhe acarretou a proibição de ensinar, pregar e celebrar eucaristia, e ainda a obra onde ele reflecte as repercussões destas sanções, “Dieu fractures”]; Schillebeeckx em 1980, 1984 e 1986 [leitura fundamental em sacramentalogia e liturgia]; Leonardo Boff em 1985 [leitura constante desde o meu aprendizado teológico, hoje, ainda escreve com 50 anos de avanço ao que nós vivemos…bem haja, seu processo de reconhecimento e perdão, será revisto num futuro não longínquo, para Deus mil anos são um dia…]; Charles Curran em 1986; Tissa Balasuriya, em 1997; Anthony de Mello, em 1998 [Leio e saboreio tudo dele. Místico humorístico, exemplo de inculturação, meu guia espiritual nas noites escuras de sexta-feira e nos dias de Páscoa; insubstituível…]; Reinhard Messner, em 2000; Jacques Dupuis [já compulsei suas obras, o livro”Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso”(pp.600), comprei-o em saldo, está na estante do meu quarto para ser devorado… pois a força das suas ideias é irrecusável] e Marciano Vidal, em 2001 [enquanto estudante de teologia moral, lembro-me que suei para poder comprar a sua obra enciclopédica “Moral de Atitudes” (4 grossos volumes); e num encontro nacional de estudantes de teologia, em Beja, pedi-lhe um autografo após a excelente conferência…]; Roger Haight, em 2004 [aqui nas livrarias de S. Luís do Maranhão, encontrei o livro “Jesus, Símbolo de Deus” (pp.575), mais penitências privadas e paguei “O” livro que me afastou ainda mais do inferno: já li e reli, risquei e rasurei, anotei e sonhei, enfim…é uma investigação ousada e inovadora, fundamental para a Cristologia pós-moderma]. Nenhum deles, porém, foi excomungado como apregoam os fundamentalistas católicos[3].

Com estas referências, como estarão o meu coração, as minhas forças e o meu entendimento? Não penses: pensar não, viver sim. A Vida é feita de pensamento e sentimento. A Fé sem Teologia, não sobrevive. A Teologia sem Fé, não é teologia mas ideologia. A boa Teologia está a ser assassinada? Podíamos até dolorosamente pensar numa indução a uma espécie de “suicídio intelectual-moral”, como a recente proposta da Congregação para a Doutrina da Fé, repetindo exemplos e métodos “antigos”, para que Jon Sobrino, se retrata-se diante do “texto” da Notificação, da dita Congregação, o que ele não aceitou profeticamente fazer[4]. A Igreja deve proteger a Fé e a Teologia, e não ser madrasta (há quem afirme com conhecimento de causa: corrupta e impiedosa, ou “casta meretriz”). A Igreja Católica é institucionalmente pesada e lenta, em todas as partes. Não estou a pedir, porque é direito/dever, leveza e rapidez. Desejo fidelidade à consciência dos teólogos, santuário do Espírito Santo e não cárcere do Magistério, esse sim, pesado e lento.

 

 

AUTOR: Este é o primeiro artigo de uma série de três (I Pretexto; II Texto; III Contexto) que vou escrever sobre o tema do "poder” como uma contribuição para o debate “dentro” e “fora” da Igreja (suas relações). Pedro José, Chapadinha, 08-04-2007. Caracteres (espaço incluídos): 4245

 


[1] Cfr. BARROS, Marcelo, “El Salvador: Somos todos pecadores” in http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=26688, acesso: 30-03-07.

[2] MORANO, Carlos Domínguez, Crer depois de Freud, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2003 [Original: 1992], pp.342. Esta obra faz a reconciliação entre a experiência psicanalítica e a experiência da fé, aplicando a esta o que de mais válido se encontra no texto freudiano. Oração, imagem de Deus, culpa, pecado e salvação, sexo, dinheiro e PODER (especialmente capítulo 9 “A ninguém na terra chameis de vosso pai” (pp.203-232); e capítulos 11 e 12, sobre as relações intra-eclesiais (pp.263-332). Já li e estudei e vou reler, as vezes necessárias, este livro provocador, na melhor acepção do termo.

[3] Cfr. BETTO, Frei, “Mundo: Sombras da Inquisição” in http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=26752, acesso: 17-03-07. Tomamos deste autor a “mini-lista”, onde o mesmo questiona com gravidade: “Como renovar a Igreja Católica se suas melhores cabeças estão sob a guilhotina de quem enxerga heresia onde há fidelidade do Espírito Santo?”. Outra defesa muito credível dos Teólogos é feita por VALLÉS, Carlos González, S.J., Querida Igreja, Ed. Paulus, 21998. Capítulo 2 “Os aprisionados pelo medo”; e capítulo 10 “A abelha e os zangões” (Carta da Teóloga Ivone Gebara, após a imposição de 2 anos de silêncio por parte do Vaticano, em 1995). Nesta obra afirma-se categoricamente: “Temos teólogos excelentes que não publicam livros por medo de censura. Temos teólogos claros e diáfanos em seu pensar que escrevem livros obscuros e difusos por temor de ser entendidos. (…) Temos editores religiosos que não conseguem que os melhores especialistas na matéria lhes escrevam os livros que insistentemente lhes são propostos, por não desejarem comprometer-se. A investigação teológica é feita hoje sob o signo do temor. Isso não é sadio”, p.17.

[4] Podemos conferir a afirmativa pela leitura (parcialmente pública) da dolorosa e inacreditável descrição, que sofre desde há 30 anos, nas relações com hierarquia vaticana, através da leitura da carta que este teólogo escreveu ao P. Kolvenbach, superior dos Jesuítas.

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