Veja o Porquê de Jon Sobrino ser proscrito…!?

 

Carta a Ellacuría – Jon Sobrino *

Aparecida: À espera de uma Assembléia e um

 Documento ‘com espírito’

 

Às vezes, dá a sensação de que Jesus de Nazaré desapareceu da cristologia oficial.

E da "Igreja dos Pobres" -nem falemos em Igreja popular"- já nem se fala nela.

 

Recados de Jon Sobrino (sob a inspiração de Ellacuría)

para a Assemléia de Aparecida em 2007.

 

Em Aparecida é necessário esse tipo de textos, que possuam verdade com lucidez e espírito com ânimo. E, para isso, quiçá, as seguintes reflexões possam ajudar.

 

1. Liberdade contra o medo. Dito com simplicidade, há medo na Igreja, Ellacu. Não é o medo que havia em teu tempo, medo dos que podiam matar o corpo, mas medo dos que podem prejudicar nossa comunidade, de que sejamos reconhecidos ou censurados. Medo de perder privilégios, status, poder social. A impressão que damos, alguns da hierarquia e sacerdotes é que, muitas vezes, estamos como que paralisados. É importante recuperar a liberdade, que, além de tudo, é central na fé: somos filhos, não servos. E em nossas mãos temos uma palavra que, por ser de Deus, não está aprisionada.

2. Humildade, exame de consciência. No texto citado de Medellín prosseguiam os bispos: "Chegam até nós as queixas da hierarquia, o clero, os religiosos, são ricos e aliados dos ricos". Matizaram as queixas, às vezes baseadas em aparências e insistiram na pobreza das paróquias e dioceses, porém concluíram com uma grande verdade. "No contexto de pobreza e de miséria em que vive a grande maioria do povo latino-americano, os bispos, sacerdotes e religiosos temos o necessário para a vida e uma certa segurança, enquanto os pobres carecem do indispensável e se debatem entre a angústia e a incerteza". Exemplo de honradez e de humildade, e até uma forma de pedir perdão.

3. Palavra contra o silêncio. Não podemos nos equivocar, e não podemos nos calar diante do que atinge gravemente o mundo de hoje, onde 2 bilhões de pessoas têm que viver com dois dólares ao dia. Falamos sobre graves problemas da família, com razão, porém não contra a guerra preventiva -seu conceito e sua realidade- do presidente Bush que produz milhares de mortos. Denunciamos alguns pecados dos outros, porém ficamos calados diante de nossos próprios pecados -alguns deles, aberrantes- a não ser quando já não podemos ocultá-los. A Igreja menciona e condena ideologias até hoje, tais como o nazismo e o comunismo; porém, a ideologia do capitalismo em si -não só o selvagem- não é denunciada com vigor e tampouco se recorda a ideologia da Doutrina de segurança Nacional, que causa milhares de mortos a mãos de batizados.

4. Parresia (N.R.: entusiasmo, vigor) contra a pusilanimidade. O entusiasmo abunda e, em excesso, em muitos movimentos. Porém, ficamos inibidos para anunciar não qualquer deus, mas o Deus dos pobres e vítimas. Proclamar a realidade desse Deus não é coisa de mera doutrina, mas de convicção e de parresía. E, tampouco, é proclamar Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e morreu crucificado e se manifestou a nós como o Filho de Deus. Falta audácia para apresentar esse Jesus como nosso irmão mais velho e não diluir-lo de mil formas infantis ou solenes.

5. Respeito ao próprio contra a imposição universal. É compreensível que existam tensões em uma macro-comunidade como a Igreja, mas o problema não reside tanto em algum desejo escuso das Igrejas do Terceiro Mundo de serem independentes, as dos pobres, indígenas e afroamericanos, que configuram "a grande Igreja dos Pobres". Resta dizer que as tensões vêm do centro: suspeitas, advertências e condenações e pouco agradecimento. O espírito de inculturação não abunda. E mesmo quando fazemos a opção por eles, no centro da Igreja não estão os pobres, tampouco estão as democracias, mas, sim, algo que mais se parece à riqueza e poder.

6. Seriedade contra o facilismo. Depende de lugares, porém dá pena ver em muitas comunidades que, quanto mais light são as coisas, mais religiosas parecem ser. Recordam a advertência de Peguy: "porque não são desse mundo, crêem que são do céu". Que isso acontece entre as pessoas simples, é compreensível até certo ponto; porém, é irresponsável apoiar religiosidades mágicas e melífluas que não humanizam Jesus disse: "tornem-se como crianças, mas, sem agir com infantilismos, sem argumentar, sem perguntar, sem protestar". O certo é que não se chega a deus pelo caminho do racionalismo. Porém, é triste que sejam tolerados e se fomentem alguns tipos de religiosidade como se os simples não tivessem capacidade de raciocinar. E ainda pior, se isso é tolerado ou fomentado é porque, dessa forma, ao menos manterão a fé. Em teu tempo, dizias, Ellacu, que a conscientização é mais urgente do que a alfabetização. Na atual conjuntura da Igreja, diríamos que a maturidade na fé é mais urgente do que expressa-la religiosamente, coisa muita vezes pitoresca.

7. Mystagogia (N.R.:catequese pós batismal na comunidade) e credibilidade contra a mera doutrina. E também, deve-se insistir em outra direção. Muitos vão despertando para a razão, pois a credulidade não dura para sempre. Então, deve-se oferecer verdade, mas sem impor uma mera doutrina.  Por isso, cada vez é mais necessária a mystagogia que conduz ao mistério de Deus. Significa introduzir-nos em um mistério que é maior, mas não nos diminui; que é luz, mas não cega; que é acolhida, mas não impõe. E isso, definitivamente, somente é possível ser comunicado se temos credibilidade. Sem ela, escutaremos as palavras da Escritura: "Por sua causa se blasfema o nome de Deus nas nações". Com ela, "as pessoas bendirão a Deus".

8. A Igreja dos pobres contra uma Igreja universal. O sonho do Papa João XXIII e do cardeal Lercaro, de dom Helder Câmara e de Monsenhor Romero continua sendo o da "Igreja dos pobres" – de quem mais?. Isso significa que os pobres são o princípio inspirador da Igreja, não somente os beneficiários de sua opção. Não negam, nem excluem a ninguém, mas são indispensáveis para configurar cristãmente tudo o que é cristão: o que podemos saber, o que nos é permitido esperar, o que temos que fazer e o que devemos celebrar. E todos somos chamados a participar, de formas diversas, analogamente, na "pobreza real" dos pobres e no espírito "dos pobres com espírito".

 

Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=25155: acessado: 10-11-06.

 

 

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