Dia 14 de Março 2007

 

Dia 14 Março 2007

 

É assim, a vida programada se desprograma, sem darmos conta. É aquele desabafo existencial: hoje, o primeiro dia do resto da tua vida. Nem uma música “Quelqu’un m’a dit“, ou “Tout Le Monde”, ou ainda, “Le ciel dans une chambre” de Carla Bruni, essa sereia nostálgica, nos pode salvar da infelicidade de terminarmos os nossos queridos dias úteis, imprescindíveis, e zelosos de nossas ocupações salvifícas, poderemos acrescentar até, santificadoras preocupações.

Um click e nos passamos para outra dimensão, sempre com o ónus do abandono do Corpo. Não queria a coisa desse jeito, assim tão abrupto. Mas os travões não obedeceram, e a/o Ford-Ranger, sofisticada e fálica, com seu ABS, o cinto de segurança apertado, os pneus novos depois do tempo previsto, a velocidade não tão excessiva quanto moderada, são menos que nada. Contingência e condição humana ou sorte e destino? Hora marcada ou adiada? Juntemos água, muita água que é Vida, chuva necessária e abençoada, mas não por cima de um alcatrão traiçoeiro… receita fatal. Cinco ou oito segundos, não muito mais que menos, e lixei-me, com um f. de forte, vou acabar assim… sem mais!

Não era um dia desses cheios e stressantes, como a maioria dos nossos dias pós-modermos, dia-a-pós-dia-a-pós-dia, num presente omnipresente, circular e fechado. Um dia sem amanhã, fé reduzida ao ateísmo prático. Serei a união de Nietzsche e madre Teresa. Ao café a tentativa de dizer uma postura em equipa colegial e corresponsável, não deu certo porque alguém pede, sempre alguém, “os dízimos” transformados em “trocos”, incompreensível. Saída rápida para um Bairro, “Novo Castelo”, pelo menos a bicicleta não ultrapassa a velocidade permitida. As visitas quaresmais foram boas, mesmo excelentes, sem pressas dando a conversa por terminada, só no fim, sem diplomacia, pois os pobres não conhecem essa “sabotagem”. Durante a tarde, talvez dez confissões que não foram forçadas e curam o nosso autismo. Bendita logoterapia, menos confissão, mais audição, apenas isso, que é fácil, mas nós complicamos o que é fácil.

Finalmente, cheguei a tempo-e-horas, para a missa costumeira, redentora e festiva. Porque só o costume da festa redime um quotidiano absurdo sem Deus. Exagero não, realismo sim. Vinha com a alma vermelha, verde ou azul. Creio que era amarela, sem pinta de sangue. Tinha sido apenas um Susto, disse meio gago, meio super-fluente às Irmãs do ministério não-ordenado, mas efectivo e real. Era um Susto e grande, mas não o último, esse é que é perigoso. A experiência humana é intransferível! Mas podemos partilhar sem impor. É aí que colocamos a categoria do Encontro, que nos faz gente, criaturas de afectos, responsáveis pelo Outro, sem demagogia. Na homilia da missa de 7ºdia, e de todos os dias doloridos tocados pelas nossas mortes, falei com o micro em mãos quentes. Na mente, os três momentos: o que a Palavra diz (objectivo); o que a Palavra me diz (subjectivo); e o que a Palavra me leva a dizer a outros (inter-subjectivo). A unção e o coração falaram no meu Corpo que me assustou. Ontem, o pai, essa raiz forte, fez 65 anos; a avó está em estado de agonia terminal, hoje, poderia ser o fim e a ruptura impensável com esse enraizamento cultural, que passa de geração em geração, para que se possa cumprir a Lei da Vida, a lei da natureza: o filho não morre antes da mãe/pai! E Jesus, morreu gritando pelo seu/nosso Pai. Agora, eu confio apenas na Sua Misericórdia!

Não mandem na minha Consciência, podem fazer a minha agenda, eu deixo! Não mandem na minha Liberdade, podem exigir as minhas competências responsáveis, eu deixo! Não mandem no meu Corpo, podem exigir o meu suor, mas o preço do meu trabalho gratuito, eu não deixo!

 

Pedro José, Chapadinha, 14-03-2007.

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